19 Outubro 1996

Custos

Você ainda se surpreende. Mérito meu.
Você ainda gosta. Mérito seu.
Custo a compreender sua lógica, se é que existe uma.
Custo a compreender minhas razões. Elas não existem.
Enquanto isso, você pensa em custos.
Tenho a absoluta certeza de nossa temporalidade. Me irrito com o desperdício.
Me falta paciência, me falta tempo.
O tempo é pouco, sempre será.
Somos mortais.
A consciência da morte não me desespera, apenas me apressa.
Não temos tempo. Nunca o teremos.
Não bastamos.
Seu egocentrismo exacerbado destrói seu prazer.
E você pensa em custos.
Custos. Que custos?
Não somos únicos.
Não somos os melhores.
Nunca o seremos.
E não há tempo.


publicado no Jornal de Poesia e no portal de poesia da Casa do Bruxo.
(Carolina Vigna Prado é meu nome de solteira)

19 Outubro 1996

Cláudio Octávio

Tive uma vez um irmão.
Reencontros são, na verdade, uma ironia da gramática. Nunca se reencontra a mesma pessoa e nunca somos os mesmos. Necessariamente, sucumbem à desilusão.
Aqueles que amamos desaparecem, surgem, no lugar, outras pessoas.
Memórias bonitas que me deixou.
Memórias de infância são sempre bonitas porque nunca são a realidade.
O irmão começou a cobrar. Mas não havia o que cobrar. Era um irmão imaginário. Filho de uma família imaginária, vivendo numa casa imaginária.
As memórias eram doces. Doces com sabor de infância. Doces com sabor de ilusão. A ilusão é doce e infantil.
O mérito do imaginário é indiscutível. Proporciona emoções inviáveis. É o ópio da criança.
Tive talvez um irmão.
Tive uma vez um irmão virtual.

19 Outubro 1996

Carta a um amigo

Escrevo por impulso.
Talvez isso não faça qualquer sentido, mas decidi correr o risco.
“… Carrega nos seus braços a criança chorosa…
Mas nos seus braços a criança estava morta…â€

O despertar de um pesadelo é muitas vezes mais cruel.
É belo o amanhecer, porque é o sorriso daqueles que me esperaram despertar. É o sorriso da liberdade.
Coloquei o roteiro em uma gaveta, esperando madurar, como o desenho de uma música qualquer.
Tenho fôlego.
Johann Wolfgang von Goethe.
A febre foi contida.
A realidade me acalenta.
Ich liebe dich.
Gostaria de acreditar em histórias com começo, meio e fim, mas não consigo. São fantasias que se realizam, outras que nascem, e a história continua, como um peão de criança em festa junina.
Gostaria de acreditar em destino, mas não consigo. São idas e vindas que traçamos com absoluta consciência e vontade.
Gostaria de acreditar em paixão, mas não consigo. O tempo vagarosamente provou o contrário.
Apenas cúmplices de uma vida.
“Gracias a la vida, perfectamente distingo lo negro del blancoâ€.
Gostaria de acreditar na razão, mas não consigo.
Gostaria de acreditar em sonhos. Felizmente, ainda consigo.
O racional e lógico não me dizem mais nada. No sonho e no desejo encontro o que procuro. Semi-platônicos, ainda não realizados.
Um desejo quase impune por ser autista.
O desejo de um amor que emule a vida, que anule a morte.
O cansaço me vence.
Boa noite.


publicado no Jornal de Poesia e no portal de poesia da Casa do Bruxo.


19 Outubro 1996

Autista

Decidi, finalmente, libertar-me.
Rompi o cordão umbilical de alguns, rompi o laço mágico da família, rompi as algemas do orgulho, enfim, rompi-me por completo.
Rompida de meus referenciais, volto a te buscar. Resgate de um parâmetro.
Graciosamente, você não me quer mais.
Estrangeiro a mim e a meu mundo, parece saltar de um quadro de Salvador Dali, surreal.
Decidi, finalmente, ignorar.
Ignorar o medo, a vergonha, as opiniões, os outros, ignorar você.
Apenas assim, ignorando você, sou capaz de ignorar-me, romper-me, partir.
Devo confessar um certo alívio cruel na ruptura.
Na ruptura com o mundo.
Finalmente, autista.
Sigo agora em busca do Eu que se perdeu.
Sigo agora em busca do Você que nunca foi.
Sigo agora em busca da paz.

19 Outubro 1996

Espera

Deixei o telefone no máximo na esperança de você ligar.
Percorri bares, restaurantes, esquinas, lares.
Te escrevi dezenas de cartas que nunca entreguei.
Arrumei a casa.
Comprei roupa.
Fui aos lugares que você freqüenta.
Tentei largar o cigarro.
Me perfumei.
Me tornei feminina.
Mudei meu horário.
Emagreci.
Amei os teus.
Te liguei, disseram que tinha saído.
Te pedi, você não respondeu.
Fiz planos.
Comprei espartilho, cinta-liga e lingerie.
Te fiz cafuné.
Me fiz disponível.
Consertei a cama.
Comprei lençóis.
Fiz cópia da chave para o caso de você ficar.
Tomo pílulas para o caso de você querer.
Carrego sua foto na minha carteira.
Aprendi a andar no seu bairro.
Chorei por você.
Ri com você.
Ri de você.
Não me importei com seu atraso.
Inventei você ao meu lado.
Te convidei para entrar.
Te convidei para ficar.
Te contei tanto.
Te dei a chave.
Te desejei.
Te atrapalhei.
Te sufoquei.
Te matei.
E você nem percebeu.


publicado no Jornal de Poesia, no portal de poesia da Casa do Bruxo e, no portal de literatura e poesia Carus Ara, sob o título “Angústias de uma espera”(Carolina Vigna Prado é meu nome de solteira)

19 Outubro 1996

Um amigo

Engraçado para se esconder, ele é sempre o centro das atenções. Bem mais prático assim, se coloca em uma posição de destaque para que ninguém perceba que não quer ser notado.
Acredito que todos os homens públicos sejam assim. Se mostram para não precisarem mostrar suas almas, uma vez que o físico já está lá.
Notável.
É assim que ele esconde sua solidão: no meio de todos. Mas não funciona.
Melancólico, consegue se mostrar meticuloso.
Ama seu trabalho, o absorve muito, o faz feliz. Muito feliz.
Ele não sabe o que é uma companheira, nunca soube. Por isso mesmo, não procura uma. Se basta.
Revisa meus textos, critica meus desenhos, perfeito em tudo que faz, esquece de revisar sua vida.
Ele tem um olhar penetrante, quase acusador. Incomoda. Sua presença incomoda quase tanto conquista.
Homem muito bonito, faz uso de sua beleza. Sabe seduzir, desviar do caminho.
Observador. Um pouco calculista. Um pouco cruel. Um pouco pedante. Deliciosamente perverso.
Aprendeu cedo etiqueta, a falar, impostação de voz.
Esqueceram de lhe ensinar a viver.

19 Outubro 1996

Alívio 1

Num rompante percebi
que não mais te pertenço
sequer preciso foi balanço
como lilás floreci

Sazonei-me em ti
curei-me deste andaço
não mais abafadiço
Livre então parti

Noto o mundo fenestro
felix culpa me coube
Creia nosso amor não fugaz

Sigo agora ao encontro
com o eu que nunca houve
Sigo agora em busca da paz


publicado no portal de literatura e poesia Carus Ara.

19 Outubro 1996

Alguém que conheci

Mais parecia um indigente, vagando pelas ruas sem notar a realidade. Como se não fizesse parte. Acho que nunca fez.
Andava pelas madrugadas, sozinho, ignorando a violência, a solidão, e o medo.
Fumava. Bebia. Fumava de novo. A única coisa que percebia era a fumaça porque era uma das poucas coisas por ali que refletiam luz.
Acho que procurava um rosto conhecido, mas não tenho certeza. Figura quase patética.
Os amigos nunca foram fiéis. Os poucos fiéis, ignorou.
Ficou careca ao perceber o ridículo da sua solidão. Engordou por causa do ego.
Sempre se achou brilhante e, de fato, era.
Parecia escrever sempre. Escrevia para se livrar da realidade porque, se a realidade fosse o papel, então se esvaziava, desaparecia, afinal, a realidade escrita é, por natureza, ficção.
Por ser homem culto, conseguia justificativas intermináveis e inquestionáveis para sua própria destruição.
Viveu uma vida vazia. Precisava esquecer. Não poderia mais conviver com a realidade.
Foi assim, esquecendo, que o esqueci na mesa de um bar.

19 Outubro 1996

5 min.

Ela lia, lacrimejava.
Olhava pra mim e sorria.
Não sabia o que dizer, então calou.
Lia sobre uma vida passada mas não esquecida. Lia quase como quem olhava a um espelho.
Os espelhos mentem: teimam em mostrar uma imagem bidimensional e invertida da realidade.
Foi assim, como em um espelho, que me vi nela. Vi meu passado e meu futuro. Fantasia cruel essa do futuro antecipado.
A música de fundo chegava a incomodar, então diminuí o volume. Mas não desliguei. Precisava daquela interferência para conseguir distinguir a realidade da fantasia.
Nesse momento lembrei de um passado remoto. Nem tão remoto, nem tão passado. Mas, enfim, lembrei. Lembrei também porque queria esquecer.
Olhei de novo pra ela e sorri compulsivamente.

19 Outubro 1996

5

Libertou-me o maestro
com sua métrica quinária
rompeu a orquestra planetária
fazendo do esquerdo destro

Ergueu o sol como cetro
e em mi a alforria argentária
emocionou em viva glória
sequer com fugaz apresto

Solfejo de instantânea soltura
escreveu em partitura singela
novo destino desobrigado

Não mais solista procura
alma sua companheira bela
dueto de líbito afinado

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