Tento, como todas as minhas forças não julgar.
Busco inexoravelmente a imparcialidade.
Afinal, precisamos de um sonho.
Desejo não ter nojo, mas desejo a náusea.
Uma náusea por excesso.
Gosto de excessos.
Gosto de ter você em excesso.
A sensação do meu poder
quando você me domina vicia.
Nesse momento acontece
a tão desejada privação
dos sentidos racionais.
Apenas cheiro, sinto, provo, toco.
É nesse instante que te amo.
Mas não se preocupe - passa rápido
como febre.
Se algum amigo me avisasse,
provavelmente não me aproximaria de você.
Mas nenhum amigo crê no poder da palavra.
Crêem apenas na sedução dos atos.
A ilusão do momento é inexplicável,
como toda e qualquer ilusão.
A campainha tocou.
Você chegou.
Demoro a atender, acendo um cigarro.
Você percebe o jogo
e não toca novamente.
Desesperada, corro à porta.
Infelizmente, você ainda está lá.
Você entra.
Não na casa.
Entra nos meus poros.
Como sempre,
primeiro vai à varanda.
Olha o mar.
Deseja ser como ele.
Frustrado, volta para mim.
Tal qual mulher de malandro
te recebo de braços abertos.
Nem tão abertos assim.
Você me manda fazer um café.
Por motivos óbvios,
não vou, mesmo querendo.
Sem uma palavra, você vai à cozinha.
Preocupada, verbal,
tensa, e adorando, te sigo.
Apago o cigarro.
Você sorri.
Só acendi porque sei
que você odeia.
Reclamo de alguma coisa fútil.
Você concorda sem ouvir.
Algum tempo depois, você vai embora.
O seu cheiro está por todo canto.
Sinto falta do seu café.
Estou sozinha em casa,
repetindo em minha mente
essa cena, ocorrida há muito.
Espero que você não volte.
Saudade.
publicado no portal de literatura e poesia
Carus Ara.