5 Junho 2008

O cheiro da poeira

O cheiro da poeira, no começo, era a única coisa que me lembrava onde eu estava. É assim, o cansaço é tanto que você primeiro só senta. Depois encosta. As pernas estão pesadas e o corpo não obedece mais. O playboy babaca olha com desprezo. Foda-se ele. Quem não vive minha dor não pode falar da minha vida. Os braços se acomodam, encontram o lugar. Ali, perto da porta fechada. Portas fechadas, história da minha vida. Uma vez me perguntaram sobre o chão. O chão não é ruim. As pedras portuguesas guardam calor durante o dia e esquentam à noite. É delas também que vem o cheiro da poeira. É um cheiro que não desgruda, uma catinga que banho não tira, é um tipo de tatuagem. É um tipo de acalento. Chico Buarque, aquele puto, deve ter morado na rua. Ah, eu dava para aquele homem. Então é assim: para dormir na rua você primeiro precisa deitar e, para deitar, primeiro precisa sentar. É uma coisa do cansaço, sabe? Eu não desisti. Quem desiste não vem trabalhar, não levanta no dia seguinte e se entrega à marvada. Estou aqui porque preciso. Ninguém dorme na rua porque quer.

publicado no 20 Linhas

19 Outubro 1996

Vodca

Tudo em sua volta tinha pouca luz e muita fumaça. Até o gato era fumaça. Isso era meio que proposital, espelhado em filmes antigos, ela tinha certeza de que era assim que uma jornalista tinha que viver. Com um certo glamour démodé. O gato também era parte desse filme antigo. Os cinzeiros cheios, copos vazios, papéis espalhados, tudo milimetricamente desorganizado.
Ela sempre foi assim, sempre viveu personagens. É uma boa maneira de não ter responsabilidades, afinal, a sua persona não está ali, é apenas uma personagem.
Seus amantes eram tratados como coadjuvantes. Ela sempre se achou fantástica, a estrela principal de um filme barato.
Bebia muito, fumava muito, transava muito, escrevia pouco para uma jornalista. Para escrever é preciso estar sóbria e para estar sóbria é preciso ter algo a escrever.
Gostava de um pôquerzinho no domingo à tarde e de uma baganinha pela manhã. Durante o pôquer ficava sempre bêbada, aquele domingo não foi exceção. Estava perdendo, como sempre.
Na mesa tinha um rapazinho novo, que sempre passava - batendo suavemente na mesa - e não parava de olhar para ela.
Sonia ficou intrigada. Afinal, já estava nos seus quase 50, acima do seu peso, algumas rugas, e - ela sabia - estava bêbada. Essa cena se repetiu por vários domingos.
Alguns meses depois, Sonia, rompendo a tradição do silêncio e imobilidade em pôquer, levantou-se para pegar mais vodca.
O rapaz a seguiu até a cozinha.
Era uma cozinha grande, clara, contrastando com o resto da casa. Tinha uma mesa de mármore branco e uns ridículos ímãs coloridos grudados na geladeira.
Foi neste momento que Sonia percebeu que não existia mais. Foi quando o rapazinho lhe perguntou:
—â€Você está bem, mãe?â€

19 Outubro 1996

Troppo

Estava distraída
quando o conheci.
Estivesse atenta,
fugiria.

Clássico,
desde sua música
até sua filosofia
pagã,
me toca.

Toca como
fosse eu
seu mais
velho amigo,
seu piano.

Interpretou
minha partitura
sem pudores,
sem erros,
sem caridade,
sem falsidade.

Ao tornar-me
translúcida
libertou-me.

Espera,
não mais
por muito tempo,
alguém
que o decifre
e consequentemente
se torne
sua ruptura.

Todo sistema
só pode ser
rompido
e corrompido
se compreendido.

Bom músico que é,
vive sistemas.

Emociona
com o olhar
seguro
de homem feito,
com as mãos
firmes
de pianista,
com seu cheiro
de mi maior.

Sua métrica tem
cinco linhas
paralelas.

Maestro
de sua vida,
aguarda
a orquestra.

Diariamente se une
à alma humana
através da emoção.

Ofereço aqui
humildemente
meu mais eterno
sentimento:
amizade.

Allegro
ma non troppo,
segue
seu caminho.


publicado no portal de literatura e poesia Carus Ara.

19 Outubro 1996

Sem fim

Ele chegava tarde. Ela chorava com filmes antigos.
Ela tinha uma tia solteirona. Ele não conheceu o pai.
Família rica, família pobre.
No início transavam como loucos. No final faziam amor.
Ela aprendeu a dançar. Ele aprendeu datilografia.
Suas presenças sempre foram fortes, incomodavam.
Falavam línguas diferentes, uma verbal, a outra corporal.
Na verdade, nunca se entenderam porque nunca se comunicaram. Mas se conheciam.
Ao invés de terem filhos, tiveram gatos. Ao invés de viverem, trabalharam.
Ao invés de se amarem, viviam.
Tentaram se ajustar ao outro. Grave engano. O que os seduzia era o original. Por excesso de amor, afogaram o amor.


publicado no portal de poesia da Casa do Bruxo.

19 Outubro 1996

Reedição 2

Uma única linha desfocada
resultava da luz em teu seio.
Fumaça sombreando o meio,
invasão desejada.

Tua presença dominada
pude então partir alheio
do seu fascínio que receio.
Intimidade abandonada.

Teu cheiro me persegue
por onde eu for
terrível suplício

Mesmo que eu negue
relembro em pavor
nosso convívio.


publicado no portal de literatura e poesia Carus Ara.

19 Outubro 1996

Reedição 1

Por impulso, destino recusado.
É belo o amanhecer, desperta,
febre contida, realidade acalenta,
racional agora sem significado.

Um pesadelo acabado
pode ser a fantasia morta.
Enganos de fel batendo à porta,
zelo há muito passado.

Começo, meio e fim inexistem,
apenas um salto sem base,
tal qual em circo o artista.

Cúmplices não mais, desistem.
Desejo impune quase
de ser autista.


publicado no portal de literatura e poesia Carus Ara.

19 Outubro 1996

Recente demais

Suas mãos me massageavam como quem massageia seu próprio ego.
Contava estórias interessantes de sua terra.
Mostrava como era fantástico, como era sensual.
Seu olhar sedutoramente calhorda me fascinava.
Sua força, seu modo cru me encantavam.
Frágil e desprotegido.
Másculo e um pouco rude, suave.
Equilíbrio.
O vapor do seu banho me sufocava.
Carinhoso, me estragava com presentes e surpresas.
Presença muito marcante, protetora.
Confiava nele.
Sinto sua falta.
Sinto sua ausência.
Porque?

19 Outubro 1996

Pequenas crueldades

Estava agora lembrando do dia em que você, sobressaltado, apareceu na porta da varanda, olhou para mim e voltou para a cama. Você dormia e eu lia um original, muito bom por sinal. Percebi nesse instante o seu verdadeiro medo, o do abandono.
Você não disse nada, felizmente. Só olhou. Nesse momento, de aproximadamente 5 segundos, me dei conta de muita coisa. Me dei conta de que você na verdade era um menino assustado. De que eu sou cruel. De que você tem medo de ficar sozinho.
O fato de eu não ter medo da solidão é que me torna cruel.
Fui então me lembrando de minhas pequenas perversidades, como sair e deixar um bilhete só com uma marca de batom grudada no espelho.
Outra foi não telefonar.
Outra foi telefonar e falar de trabalho.
Ser pega chorando, esfregar as lágrimas, sorrir, não dizer nada, ou melhor: dizer que não foi nada.
Me tornar amiga da sua secretária e sair para almoçar com ela e não contigo.
Sim, fui cruel.
Mas mais cruel foi você, ao saber disso e sorrir.
Apenas sorrir.

19 Outubro 1996

Perfeito

Tem o irritante hábito de me entender.
Tem o agradável hábito de mentir.
Preciso de uma massagem.
Essa total transparência e compreensão me despe, vulnerável.
Preciso de um cigarro.
Você, que prevê, que antevê, que pós-vê, que sempre vê.
Não erra. É milimétrico. Nanométrico. Constantemente.
Preciso de um drinque.
Calmo.
Certo.
Sempre.
Fatal.

19 Outubro 1996

Outra geração

Ela foi a maré que a onda levou,
foi a nuvem que o vento soprou,
foi a luz que apagou,
a bebida que secou,
a paixão que nunca existiu,
o gozo que faltou,
o riso que acanhou,
a criação que não surgiu,
o choro que não veio.
Ela foi a poesia que não pertence, se esvai.
Ela foi o beijo que ficou,
o pai que fugiu,
o filho que morreu,
a passeata que não saiu,
o combustível que acabou,
o pavio que molhou,
o papel em branco.
Ela foi, por fim,
a vida que tive e que passou.


publicado no portal de literatura e poesia Carus Ara.

19 Outubro 1996

Ordens

Teu cheiro me dá vontade de fazer amor. Não necessariamente contigo e não nesta ordem.
Teus olhos me dão vontade de falar. Não pra você, mas sobre você.
Tuas mãos me desejam. Não necessariamente Eu e não necessariamente nesta ordem.
Tua boca me dá vontade de beijar.
Teu trabalho é lindo, me excita.
Tua companhia é divina. Necessariamente você.
Seu sorriso me entristece.
Tuas palavras fazem sentido. Não nesta ordem.
Tua música agrada, tua poesia instiga, teu rosto excita. Não nesta ordem.
Tua forma de andar encanta. Tua forma de amar hipnotiza. Não nesta ordem.
Violão me lembra você. Não nesta ordem.
Sexo me lembra você. Necessariamente nesta ordem.

19 Outubro 1996

Não

Você me olhava como quem não quer nada, querendo tudo.
Você não me pedia, não me falava, não me tocava.
Mas eu esperava.
Você namorava com aquela.
Me desejava porque não me conhecia.
Foi sorrindo, se chegando, dizendo não, quase inexorável.
Ãamos assim, despistando, para que ninguém notasse.
Começou a não ser mais satisfatório.
Comecei a dizer não.
Começou a exaustão.
A exaustão do não.
Não.

19 Outubro 1996

Momentos desperdiçados

Notava-se claramente que ele começava a desenhar um sorriso. Costumava fazer isso.
Ia assim, desenhando, rabiscando, esboçando, seus olhos gradativamente se metamorfoseavam em vírgulas.
Dedos amarelados que não conseguiam mascarar os traços do fumo de tantos anos.
Lábios ressecados por longos períodos no ar condicionado.
Cabelo grisalho, bem cortado, demonstrando sua preocupação com a aparência.
Seus filhos eram aparentes na sua fala, no tom das palavras.
Não tentava seduzir, por isso mesmo, conseguia.
Cavalheiro, acendia o cigarro dela.
O ambiente era fumaça, bebidas e sorrisos.
Ele estava bastante tenso, fazia muito tempo.
Ela também, mas aprendeu com o sofrimento a não demonstrar.
O único problema foi que ela aprendeu também a não amar.
Então, ele se foi.

19 Outubro 1996

Integrando

Ele, que ainda tinha a ilusão de deter o controle sobre sua vida, respirava aliviado.
Triste perceber seu cartesianismo. Ele ainda não tinha aprendido o suficiente da vida para entender a dialética. O peculiar é que tinha vivido diversas situações com potencial de riqueza bastante alto, mas aparentemente não foi capaz de compreender o que acontece. Insiste na lógica formal. A realidade não existe se não for uma concepção estética dela mesma. Existe um erro na matemática, que é a suposição da existência de regras. A vida gastou um tempo absurdo tentando lhe ensinar algo. Ele sequer ouviu.
Busca a perfeição, grave engano. Busca a harmonia, doce ilusão. Busca ser seu próprio Deus, estando assim, gradativamente mais distante.
Respirava aliviado por não ser mais obrigado a suportar o niilismo dela, que por sua vez havia simplesmente desistido. Ele nunca foi capaz de compreender a existência dela, como ser humano desprendido de valores. Ela era simplesmente amoral.
Ela escrevia. Escrever é terrível. É doloroso como um parto.
Ela costumava dizer que escrever, para ela, era como carícias preliminares. Essenciais, mas angustiantes até que acabem e se resolvam em algo concreto. Mesmo assim, ela escrevia o tempo inteiro. Mesmo quando não estava digitando, escrevia em sua mente. Como uma máquina fotográfica, transcrevendo a realidade para o papel. Tentando incessantemente representar a estética dos acontecimentos.
A preocupação dela pelo lógico era absolutamente inexistente. O que não significa, de forma alguma, que era uma pessoa puramente emocional. Era apenas livre. Essa liberdade, por sua vez, a impedia de compreender qualquer ato social.
Foi assim, por um problema aritmético, que a relação deles acabou.

19 Outubro 1996

Humano

Carregava no braço uma tatuagem ridícula, no dedo um anel supostamente místico e no peito uma dor enorme.
Vivia em um apartamento pequeno, empoeirado, úmido, mal ventilado e muito simpático. Tinha janelas de ferro torcido pintado de branco e ruidosas tábuas corridas no chão. O chuveiro era frio e servia como varal.
Não gostava de plantas. Tinha um gato velho e gordo.
Livros por todo canto. Alguns discos.
Não entendia de política.
Às vezes se lembrava de sorrir.
Citava Camões, Shakespeare, Nietzsche e Millôr Fernandes.
Falava pouco.
Lia muito.
Não tinha emprego.
Homem muito inteligente.
Me lembro vagamente que cantava Elis no chuveiro.
Desafinado.
Humano.
Me lembro também que gostava de Kir Royale com ostras.
Me apresentou a Nietzsche, a Van Gogh e a Felini há muitos anos, no La Coupole, em Paris, perto da estação de metrô Vavin. Foi quando eu o apresentei a Cousteau, ao mar, a Mardi Gras e à inocência.
A última vez que o encontrei foi à meia luz, sozinho em um bar, bebendo, fumando. Acho que pensava em algo, mas não tenho certeza. Não me aproximei. Não me chamou.
Estocava, como todo bom francês, vinho tinto no banheiro e comia queijo derretido com açúcar no café da manhã.
Ainda me lembro daquele dia de chuva, névoa e poluição na grande Paris.
Um homem terrivelmente solitário.

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