O cheiro da poeira
O cheiro da poeira, no começo, era a única coisa que me lembrava onde eu estava. É assim, o cansaço é tanto que você primeiro só senta. Depois encosta. As pernas estão pesadas e o corpo não obedece mais. O playboy babaca olha com desprezo. Foda-se ele. Quem não vive minha dor não pode falar da minha vida. Os braços se acomodam, encontram o lugar. Ali, perto da porta fechada. Portas fechadas, história da minha vida. Uma vez me perguntaram sobre o chão. O chão não é ruim. As pedras portuguesas guardam calor durante o dia e esquentam à noite. É delas também que vem o cheiro da poeira. É um cheiro que não desgruda, uma catinga que banho não tira, é um tipo de tatuagem. É um tipo de acalento. Chico Buarque, aquele puto, deve ter morado na rua. Ah, eu dava para aquele homem. Então é assim: para dormir na rua você primeiro precisa deitar e, para deitar, primeiro precisa sentar. É uma coisa do cansaço, sabe? Eu não desisti. Quem desiste não vem trabalhar, não levanta no dia seguinte e se entrega à marvada. Estou aqui porque preciso. Ninguém dorme na rua porque quer.







