22 Outubro 2008

velha

Eu sou do tempo em que Plutão era um planeta.

21 Outubro 2008

piercing

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.” - Carta a El Rei D. Manuel, por Pero Vaz de Caminha.

Piercings no rosto me dão nervoso porque eu não consigo conversar com a pessoa e impedir o meu olho de ser atraído magneticamente para o objeto espetado e isso, dependendo da ocasião, pode aborrecer meu interlocutor. Adoro tatuagens, de toda forma e espécie.

Independente de opiniões pessoais, tenho grande dificuldade de entender o pré-julgamento de alguns.

Ouvi hoje, em um elevador, de uma moça nova, seus 22, 23 no máximo, do tipo na moda: “ah, eu não confio nele, ele tem um piercing no nariz!”. Precisei torcer o meu fígado para não responder: “e você tem dois piercings nas orelhas, deve ser uma pessoa terrível!”.

Ando muito pouco paciente com a humanidade.

21 Outubro 2008

Males, que contra mim vos conjurastes…

Males, que contra mim vos conjurastes,
quanto há de durar tão duro intento?
Se dura porque dura meu tormento,
baste vos quanto já me atormentastes.

Mas se assi perfiais porque cuidastes
derrubar meu tão alto pensamento,
mais pode a causa dele, em que o sustento,
que vós, que dela mesma o ser tomastes.

E, pois vossa tenção, com minha morte,
há de acabar o mal destes amores,
dai já fim a um tormento tão comprido,

porque d’ambos contente seja a sorte:
vós, porque me acabastes, vencedores;
e eu, porque acabei de vós vencido.

- Luís Vaz de Camões

20 Outubro 2008

Viver é melhor que sonhar

Hoje eu sei que quem me deu a idéia
A idéia de uma nova consciência e juventude
Está em casa guardado por Deus
Contando o vil metal
Minha dor é perceber que apesar
De termos feito tudo, tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais

Esta é uma música linda que eu nunca consegui entender de verdade. Meus pais são revolucionários e nunca ficaram em casa contando o vil metal. Não faço idéia de como é uma pessoa ficar triste por ser e/ou viver como os pais. Aliás, ficar guardado por Deus é um conceito completamente obscuro. Se os deuses teoricamente tomam conta das almas então guardado por um deus é um defunto ambulante ou algum tipo de gato de Schrödinger e tanto um quanto o outro me parece bastante perturbador.

Tem uma coisa que eu entendo: viver é melhor que sonhar.

20 Outubro 2008

Ovnis

Grã-Bretanha libera arquivos de Ovnis

A Grã-Bretanha liberou 19 arquivos sobre aparições de objetos voadores não identificados capturadas entre 1986 e 1992.

O governo britânico deve divulgar cerca de 200 arquivos sobre as aparições nos próximos quatro anos.

20 Outubro 2008

Cervantes

Não fujais, covardes e vis criaturas; é um só cavaleiro o que vos investe.

Dom Quixote de La Mancha briga com moinhos de vento que encontra pelo caminho. Refere-se a eles como os desaforados gigantes e, claro, é tido por louco.

Todos nós temos dias de Quixote e dias de Sancho mas é triste é quando todos à sua volta só enxergam simples moinhos o tempo todo.

A capacidade de se ver sob outro ângulo deveria ser matéria obrigatória na alfabetização.

18 Outubro 2008

BBB

Um amigo querido está concorrendo ao BBB.

Nunca assisti esse treco e, mesmo que ele entre, continuarei não vendo. Aliás, nem tenho Globo em casa.

De toda forma… O Rapha é um violinista brilhante e talentoso (não, eu não tenho a menor idéia do que o levou a fazer um treco desses) e é muito do bem. Gosto imensamente dele e espero que ele consiga tudo que quer na vida.

Então, se você tiver aí à toa, entra lá e vota no meu amigo, please.

Merci.

18 Outubro 2008

Aulete

Eu era fã do dicionário Aulete Digital, que usei até este preciso instante.

Hoje lançaram a versão online. Continua gratuita e aberta mas vem com uma novidade: colaboração.

Não gostei. Dicionário é o tipo de coisa que eu quero ter certeza de que foi um linguista que fez o verbete. A confiança vai por água abaixo quando o autor não é alguém especializado. Eu já tenho um pouco desta sensação com a wikipedia, mas com dicionário acho ainda mais grave.

Ah, em tempo: o jogo da forca é divertidíssimo!

17 Outubro 2008

Cássio Lázaro

A escultura de grande formato é sempre um diálogo com o público, com a pólis, e portanto com o poder. Os grandes monumentos são tradicionalmente construídos e moldados de acordo com o poder vigente, para a manutenção do status quo. As esculturas ou questionam este poder ou o apóiam. A escultura jamais pode ser, entretanto, neutra.

A neutralidade pertence aos bancos, suíços ou não, e é um modelo falido. A arte não se permite neutra. A arte urbana muito menos.

Um pouco de história. A década de 30 foi marcada por grandes questões políticas e pelo autoritarismo. Tínhamos o nazismo de um lado, Roosevelt de outro tentando erguer o seu país depois da quebra da bolsa de 29 e tínhamos Vargas no Brasil e sua Assembléia Constituinte de 33. É neste cenário complexo e perturbador que o modernismo brota.

O modernismo combate o impressionismo. Por isso temos pinturas que propositalmente desobedecem a anatomia, desenhos que dão as costas para a proporção e perspectiva, ao mesmo tempo que trazem traços mais reais e assertivos. É - ou deveria ser - uma contestação. Compare um Monet com um Picasso, por exemplo. O impressionismo traz a impressão (ahá!) do real com luz, sombra e traços que não são traços. O modernismo traz o traço absolutamente real e concreto em uma interpretação moldada, subjetiva e deturpada da realidade. Um é o oposto do outro.

Estamos falando de um momento, a década de 30, muito perturbador na história mundial, onde as certezas humanas morrem todas, uma a uma, afogadas nas teorias de Einstein.

Passaram-se 80 anos e a história dá voltas. A bolsa quebra novamente, temos Bush, fundamentalistas religiosos em todos os cantos (uma nova forma de nazismo) e uma internet tão revolucionária quanto a relatividade de Einstein.

Temos hoje um chão muito similar ao que deixou brotar o modernismo. É natural, portanto, vermos artistas com os mesmos questionamentos.

Fui no MuBE e saí de lá com a sensação de que a Semana de 22 parece não terminar nunca.

Cássio Lázaro dialoga com o urbano com a forma não-representativa, que por sua vez dialoga em si e entre si com massa e linha. A sua exposição Amassaduras, Dobraduras e Rasgaduras se insere na pólis de forma orgânica, admitindo em si a metamorfose de concreto que a cerca.

Ou seja, considerando que a cidade muda sempre e se molda em cima de sua própria decadência, a escultura que se propõe orgânica mas sem ser representativa, complementa e se permite complementar por este ciclo de vida e morte do concreto.

Falei do modernismo porque Cássio Lázaro pode ser entendido como um modernista. Ele pega a forma e a destrói, a molda de acordo com a sua interpretação da matéria, sem com isso enfraquecer o traço.

O humano, onde está necessariamente inserido o contexto da escultura, pode ser retratado de três formas: por sua presença pictórica, pelo registro de uma interferência ou por sua ausência no espaço.

As esculturas de Cássio Lázaro retratam o humano por sua ausência: é através de suas formas quase fractais que ele questiona a presença (ou não) deste humano e, conseqüentemente, de seu papel na sociedade. Novamente, reproduzindo portanto a vida-morte orgânica da cidade que acolhe e é acolhida por ele.

São esculturas grandes, de aço pintado, laqueado e oxidado que questionam o status quo, ao destruir a forma simbólica do concretismo da nacionalidade e do poder. E isso é bom.

O ruim é que eu tinha uma certa esperança de que a história não desse tanta volta.


publicado no Aguarrás
edição 15, ano 3 - setembro & outubro de 2008, ISSN 1980-7767

(imagens no Aguarrás)

17 Outubro 2008

Ashley Wood

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