19 October 1996

Não

Você me olhava como quem não quer nada, querendo tudo.
Você não me pedia, não me falava, não me tocava.
Mas eu esperava.
Você namorava com aquela.
Me desejava porque não me conhecia.
Foi sorrindo, se chegando, dizendo não, quase inexorável.
Ãamos assim, despistando, para que ninguém notasse.
Começou a não ser mais satisfatório.
Comecei a dizer não.
Começou a exaustão.
A exaustão do não.
Não.

19 October 1996

Momentos desperdiçados

Notava-se claramente que ele começava a desenhar um sorriso. Costumava fazer isso.
Ia assim, desenhando, rabiscando, esboçando, seus olhos gradativamente se metamorfoseavam em vírgulas.
Dedos amarelados que não conseguiam mascarar os traços do fumo de tantos anos.
Lábios ressecados por longos períodos no ar condicionado.
Cabelo grisalho, bem cortado, demonstrando sua preocupação com a aparência.
Seus filhos eram aparentes na sua fala, no tom das palavras.
Não tentava seduzir, por isso mesmo, conseguia.
Cavalheiro, acendia o cigarro dela.
O ambiente era fumaça, bebidas e sorrisos.
Ele estava bastante tenso, fazia muito tempo.
Ela também, mas aprendeu com o sofrimento a não demonstrar.
O único problema foi que ela aprendeu também a não amar.
Então, ele se foi.

19 October 1996

Integrando

Ele, que ainda tinha a ilusão de deter o controle sobre sua vida, respirava aliviado.
Triste perceber seu cartesianismo. Ele ainda não tinha aprendido o suficiente da vida para entender a dialética. O peculiar é que tinha vivido diversas situações com potencial de riqueza bastante alto, mas aparentemente não foi capaz de compreender o que acontece. Insiste na lógica formal. A realidade não existe se não for uma concepção estética dela mesma. Existe um erro na matemática, que é a suposição da existência de regras. A vida gastou um tempo absurdo tentando lhe ensinar algo. Ele sequer ouviu.
Busca a perfeição, grave engano. Busca a harmonia, doce ilusão. Busca ser seu próprio Deus, estando assim, gradativamente mais distante.
Respirava aliviado por não ser mais obrigado a suportar o niilismo dela, que por sua vez havia simplesmente desistido. Ele nunca foi capaz de compreender a existência dela, como ser humano desprendido de valores. Ela era simplesmente amoral.
Ela escrevia. Escrever é terrível. É doloroso como um parto.
Ela costumava dizer que escrever, para ela, era como carícias preliminares. Essenciais, mas angustiantes até que acabem e se resolvam em algo concreto. Mesmo assim, ela escrevia o tempo inteiro. Mesmo quando não estava digitando, escrevia em sua mente. Como uma máquina fotográfica, transcrevendo a realidade para o papel. Tentando incessantemente representar a estética dos acontecimentos.
A preocupação dela pelo lógico era absolutamente inexistente. O que não significa, de forma alguma, que era uma pessoa puramente emocional. Era apenas livre. Essa liberdade, por sua vez, a impedia de compreender qualquer ato social.
Foi assim, por um problema aritmético, que a relação deles acabou.

19 October 1996

Humano

Carregava no braço uma tatuagem ridícula, no dedo um anel supostamente místico e no peito uma dor enorme.
Vivia em um apartamento pequeno, empoeirado, úmido, mal ventilado e muito simpático. Tinha janelas de ferro torcido pintado de branco e ruidosas tábuas corridas no chão. O chuveiro era frio e servia como varal.
Não gostava de plantas. Tinha um gato velho e gordo.
Livros por todo canto. Alguns discos.
Não entendia de política.
Às vezes se lembrava de sorrir.
Citava Camões, Shakespeare, Nietzsche e Millôr Fernandes.
Falava pouco.
Lia muito.
Não tinha emprego.
Homem muito inteligente.
Me lembro vagamente que cantava Elis no chuveiro.
Desafinado.
Humano.
Me lembro também que gostava de Kir Royale com ostras.
Me apresentou a Nietzsche, a Van Gogh e a Felini há muitos anos, no La Coupole, em Paris, perto da estação de metrô Vavin. Foi quando eu o apresentei a Cousteau, ao mar, a Mardi Gras e à inocência.
A última vez que o encontrei foi à meia luz, sozinho em um bar, bebendo, fumando. Acho que pensava em algo, mas não tenho certeza. Não me aproximei. Não me chamou.
Estocava, como todo bom francês, vinho tinto no banheiro e comia queijo derretido com açúcar no café da manhã.
Ainda me lembro daquele dia de chuva, névoa e poluição na grande Paris.
Um homem terrivelmente solitário.

19 October 1996

Happy hour

Ficavam por horas ali, na mesa fria de metal num bar do Centro. Debaixo da garoa, vencendo o cansaço, vencendo a vontade.
Não viam os mendigos, não viam as crianças, não viam a fome, a miséria, o mundo.
Estavam cegos e surdos. Burros sempre foram.
Não viam os companheiros. Não viam a família.
Tudo em prol da empresa, quase acéfalos.
Esqueciam compromissos.
Esqueciam do tempo, do mundo, do jornal, da mulher, dos filhos, até mesmo do futebol.
Iam assim, esquecendo e bebendo até o motel.
Viviam a vida vazia do glorioso mundo de negócios.
Viviam o esquecimento, a solidão, a angústia, a hipocrisia.
Viviam, por fim, a inércia aprendida.

19 October 1996

Forças

Tento, como todas as minhas forças não julgar.
Busco inexoravelmente a imparcialidade.
Afinal, precisamos de um sonho.
Desejo não ter nojo, mas desejo a náusea.
Uma náusea por excesso.
Gosto de excessos.
Gosto de ter você em excesso.

A sensação do meu poder
quando você me domina vicia.
Nesse momento acontece
a tão desejada privação
dos sentidos racionais.
Apenas cheiro, sinto, provo, toco.
É nesse instante que te amo.
Mas não se preocupe - passa rápido
como febre.

Se algum amigo me avisasse,
provavelmente não me aproximaria de você.
Mas nenhum amigo crê no poder da palavra.
Crêem apenas na sedução dos atos.
A ilusão do momento é inexplicável,
como toda e qualquer ilusão.
A campainha tocou.
Você chegou.

Demoro a atender, acendo um cigarro.
Você percebe o jogo
e não toca novamente.
Desesperada, corro à porta.
Infelizmente, você ainda está lá.
Você entra.
Não na casa.
Entra nos meus poros.

Como sempre,
primeiro vai à varanda.
Olha o mar.
Deseja ser como ele.
Frustrado, volta para mim.
Tal qual mulher de malandro
te recebo de braços abertos.
Nem tão abertos assim.

Você me manda fazer um café.
Por motivos óbvios,
não vou, mesmo querendo.
Sem uma palavra, você vai à cozinha.
Preocupada, verbal,
tensa, e adorando, te sigo.

Apago o cigarro.
Você sorri.
Só acendi porque sei
que você odeia.
Reclamo de alguma coisa fútil.
Você concorda sem ouvir.

Algum tempo depois, você vai embora.
O seu cheiro está por todo canto.
Sinto falta do seu café.
Estou sozinha em casa,
repetindo em minha mente
essa cena, ocorrida há muito.

Espero que você não volte.
Saudade.


publicado no portal de literatura e poesia Carus Ara.

19 October 1996

A faca e as chaves

Ele a seguiu por todo canto.
Tentava chamar sua atenção.
Brincava com uma faca e em alguns momentos a passava na boca, entre os dentes.
Ele falava mas ela não ouvia nem respondia.
Continuava brincando com a faca.
Quando ele pegou o afiador, ela aproveitou e se trancou no banheiro.
Calmamente, ele afiou a faca. Ela podia ouvir.
Ele avisou que tinha a chave. Aliás, todas as chaves. Ela sabia.
Ele mostrou a faca através do vão inferior da porta. Então colocou a chave na porta e esperou.
Sentou, encostado na porta, para ouvir seu lamento, isso lhe dava prazer.
Ela procurou algo no banheiro, mas não encontrou.
Ele não tinha pressa.
Gostava daquele jogo.
Cansada, não tinha mais esperança.
Quando ela parou de chorar, abriu a porta.
Rasgou a roupa dela com a faca, colocou as chaves em sua boca, e.

19 October 1996

Ela

A imagem que tenho dela, de opaca, não tem nada. Quase uma transparência no tempo, uma sobreposição de imagens não muito nítidas.
Moça bonita, de traços finos e cabelos castanhos. Parecia nascer de um quadro de Renoir. Muito atraente.
Quase não falava, não sorria, apenas era. Parecia lembrar-se de um passado que somente a ela pertencia.
Lembro-me que tinha o estranho hábito de fazer nada, fazendo tudo ao mesmo tempo. Rara competência.
Quando andava não fazia barulho. Nenhum de seus movimentos era sonoro. Parecia faltar um sonoplasta nas cenas em que participava.
Parecia triste, talvez fosse.
No espelho não via sua imagem refletida, via a reflexão do passado no futuro.
Acho que me observava tanto porque naquele momento eu era a imagem de seu passado.
Quieta. Era como se não desejasse que a notassem. Gostava do anonimato que o silêncio proporcionava. Do anonimato e da paz.
Se movimentava de um lado a outro me pregando sustos. Nesse momento, parecia achar engraçado, mas nem assim completava um sorriso inteiro.
Eu a amava então.
Hoje, conhece perfeitamente o relacionamento com o mundo, por isso mesmo, às vezes não se relaciona.
Mulher muito bonita.
Gosta de filmes estrangeiros, com legendas, de diretores famosos que ninguém vê.
Lê muito, escreve incrivelmente bem. Tem um traço leve, solto, quase uma dança.
Possui um humor quase britânico, sarcástico, de quem já levou muitas voltas da vida. Apenas a sua expressão do que sente pelo mundo, sem meias palavras nem meias mentiras.
Bem longe da perfeição e sem o menor desejo de estar próxima, conhece bem seus limites e limitações. Vive bem com eles.
Vive bem com a passagem do tempo. Tempo este que mal se percebe em seu rosto.
Tornou-se, para mim, mulher alegre. Jamais saberei se o passado era fantasia ou ilusão. Considerando que é o que tenho, decidi que é real.
Quis tudo. Conseguiu, eu acho.
Sem mentiras, falsidade, rodeios, feminismos nem machismos. Mulher.
Continuei a amá-la. Talvez mais.
Fica aqui, meu muito obrigado.

19 October 1996

Desenho animado

É aquele cara magricela e branco, de óculos sentado no Gol branco, quase como uma tentativa de camuflagem. Usa um terno enfadonho e está sempre com os vidros fechados.
Para se obter uma sombra em desenho animado é usada uma técnica de expor aqueles quadros novamente, protegendo o que não é sombra da luz, de forma a “queimar†mais um pouco aquele pedaço do filme.
Se sentia como uma sombra de desenho animado.
Às vezes parava no trânsito e começava a perceber como as pessoas na verdade não passavam de caricaturas de pessoas, cuidadosamente desenhadas por algum artista desconhecido.
Quando conseguia - raros instantes - imaginar a existência de Deus, via um homem de seus 25-30, com cabelo comprido, jaqueta heavy-metal, brinco de argola na orelha esquerda, talvez um piercing no nariz, com um maço de Chamex em uma mão e uma canetinha 0.3 na outra.
Teimava em ver apenas ilustrações, animações, obras cinematográficas, daquelas cheias de efeitos especiais que custam uma fortuna em Hollywood. Chegava então à mais óbvia das conclusões: Hollywood era Deus.
A percepção dele da realidade passou, finalmente, a ser precisa, justa, correta, afinal, não fazia mais parte dela, consequentemente, tinha o distanciamento necessário para melhor avaliar os fatos.
Foi ficando verde. Aquele verde-clorofila de uma aguada de nanquim de má qualidade. Sua pele não via mais o sol, aos poucos foi se tornando fotofóbico. Enfim seu sonho ermitão se tornava realidade.
Morava num sala e quarto pequeno na Zona Sul do Rio, as paredes eram iguaiszinhas às dos primeiros desenhos do Mickey em preto e branco, aquele, dos fantasmas, com o Pateta. Seu banheiro era a famosa cena de Fantasia, a da regência, com o Mickey. A mesa foi herdada, junto com as cadeiras e tudo mais que tinha na sala, do antigo apartamento de seus pais. No quarto, só o colchão de casal no chão, único objeto que fazia com que ele sentisse uma remota falta da realidade.
A organização de seu apartamento era inexistente. Rapidamente teve tendinite e se tornou míope. Mas não fazia diferença, afinal, já não conhecia mais ninguém mesmo. Vagarosamente, começou a perceber que assim como as pessoas não lhe faziam mais falta, ele também passava desapercebido. Enfim, a auto-suficiência!
Alguns anos haviam se passado quando resolveu ligar para velhos amigos. Mas não tinha para quem ligar. Não existiam velhos amigos porque antes do vídeo-game era o desenho animado, e antes do desenho animado era o que mesmo?
É ele que eu imagino quando estou no trânsito observando as caricaturas das pessoas. É aquele cara magricela e branco, de óculos sentado no Gol branco, quase como uma tentativa de camuflagem. Usa um terno enfadonho e está sempre com os vidros fechados. Este homem certamente não existe, não está ali do meu lado buzinando. Ele é uma criação do Walt Disney, assim como tudo que vejo.

19 October 1996

Custos

Você ainda se surpreende. Mérito meu.
Você ainda gosta. Mérito seu.
Custo a compreender sua lógica, se é que existe uma.
Custo a compreender minhas razões. Elas não existem.
Enquanto isso, você pensa em custos.
Tenho a absoluta certeza de nossa temporalidade. Me irrito com o desperdício.
Me falta paciência, me falta tempo.
O tempo é pouco, sempre será.
Somos mortais.
A consciência da morte não me desespera, apenas me apressa.
Não temos tempo. Nunca o teremos.
Não bastamos.
Seu egocentrismo exacerbado destrói seu prazer.
E você pensa em custos.
Custos. Que custos?
Não somos únicos.
Não somos os melhores.
Nunca o seremos.
E não há tempo.


publicado no Jornal de Poesia e no portal de poesia da Casa do Bruxo.
(Carolina Vigna Prado é meu nome de solteira)

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