Vodca
Tudo em sua volta tinha pouca luz e muita fumaça. Até o gato era fumaça. Isso era meio que proposital, espelhado em filmes antigos, ela tinha certeza de que era assim que uma jornalista tinha que viver. Com um certo glamour démodé. O gato também era parte desse filme antigo. Os cinzeiros cheios, copos vazios, papéis espalhados, tudo milimetricamente desorganizado.
Ela sempre foi assim, sempre viveu personagens. É uma boa maneira de não ter responsabilidades, afinal, a sua persona não está ali, é apenas uma personagem.
Seus amantes eram tratados como coadjuvantes. Ela sempre se achou fantástica, a estrela principal de um filme barato.
Bebia muito, fumava muito, transava muito, escrevia pouco para uma jornalista. Para escrever é preciso estar sóbria e para estar sóbria é preciso ter algo a escrever.
Gostava de um pôquerzinho no domingo à tarde e de uma baganinha pela manhã. Durante o pôquer ficava sempre bêbada, aquele domingo não foi exceção. Estava perdendo, como sempre.
Na mesa tinha um rapazinho novo, que sempre passava - batendo suavemente na mesa - e não parava de olhar para ela.
Sonia ficou intrigada. Afinal, já estava nos seus quase 50, acima do seu peso, algumas rugas, e - ela sabia - estava bêbada. Essa cena se repetiu por vários domingos.
Alguns meses depois, Sonia, rompendo a tradição do silêncio e imobilidade em pôquer, levantou-se para pegar mais vodca.
O rapaz a seguiu até a cozinha.
Era uma cozinha grande, clara, contrastando com o resto da casa. Tinha uma mesa de mármore branco e uns ridÃculos Ãmãs coloridos grudados na geladeira.
Foi neste momento que Sonia percebeu que não existia mais. Foi quando o rapazinho lhe perguntou:
—â€Você está bem, mãe?â€







