Pequenas crueldades
Estava agora lembrando do dia em que você, sobressaltado, apareceu na porta da varanda, olhou para mim e voltou para a cama. Você dormia e eu lia um original, muito bom por sinal. Percebi nesse instante o seu verdadeiro medo, o do abandono.
Você não disse nada, felizmente. Só olhou. Nesse momento, de aproximadamente 5 segundos, me dei conta de muita coisa. Me dei conta de que você na verdade era um menino assustado. De que eu sou cruel. De que você tem medo de ficar sozinho.
O fato de eu não ter medo da solidão é que me torna cruel.
Fui então me lembrando de minhas pequenas perversidades, como sair e deixar um bilhete só com uma marca de batom grudada no espelho.
Outra foi não telefonar.
Outra foi telefonar e falar de trabalho.
Ser pega chorando, esfregar as lágrimas, sorrir, não dizer nada, ou melhor: dizer que não foi nada.
Me tornar amiga da sua secretária e sair para almoçar com ela e não contigo.
Sim, fui cruel.
Mas mais cruel foi você, ao saber disso e sorrir.
Apenas sorrir.







