19 October 1996

Humano

Carregava no braço uma tatuagem ridícula, no dedo um anel supostamente místico e no peito uma dor enorme.
Vivia em um apartamento pequeno, empoeirado, úmido, mal ventilado e muito simpático. Tinha janelas de ferro torcido pintado de branco e ruidosas tábuas corridas no chão. O chuveiro era frio e servia como varal.
Não gostava de plantas. Tinha um gato velho e gordo.
Livros por todo canto. Alguns discos.
Não entendia de política.
Às vezes se lembrava de sorrir.
Citava Camões, Shakespeare, Nietzsche e Millôr Fernandes.
Falava pouco.
Lia muito.
Não tinha emprego.
Homem muito inteligente.
Me lembro vagamente que cantava Elis no chuveiro.
Desafinado.
Humano.
Me lembro também que gostava de Kir Royale com ostras.
Me apresentou a Nietzsche, a Van Gogh e a Felini há muitos anos, no La Coupole, em Paris, perto da estação de metrô Vavin. Foi quando eu o apresentei a Cousteau, ao mar, a Mardi Gras e à inocência.
A última vez que o encontrei foi à meia luz, sozinho em um bar, bebendo, fumando. Acho que pensava em algo, mas não tenho certeza. Não me aproximei. Não me chamou.
Estocava, como todo bom francês, vinho tinto no banheiro e comia queijo derretido com açúcar no café da manhã.
Ainda me lembro daquele dia de chuva, névoa e poluição na grande Paris.
Um homem terrivelmente solitário.