Ela
A imagem que tenho dela, de opaca, não tem nada. Quase uma transparência no tempo, uma sobreposição de imagens não muito nÃtidas.
Moça bonita, de traços finos e cabelos castanhos. Parecia nascer de um quadro de Renoir. Muito atraente.
Quase não falava, não sorria, apenas era. Parecia lembrar-se de um passado que somente a ela pertencia.
Lembro-me que tinha o estranho hábito de fazer nada, fazendo tudo ao mesmo tempo. Rara competência.
Quando andava não fazia barulho. Nenhum de seus movimentos era sonoro. Parecia faltar um sonoplasta nas cenas em que participava.
Parecia triste, talvez fosse.
No espelho não via sua imagem refletida, via a reflexão do passado no futuro.
Acho que me observava tanto porque naquele momento eu era a imagem de seu passado.
Quieta. Era como se não desejasse que a notassem. Gostava do anonimato que o silêncio proporcionava. Do anonimato e da paz.
Se movimentava de um lado a outro me pregando sustos. Nesse momento, parecia achar engraçado, mas nem assim completava um sorriso inteiro.
Eu a amava então.
Hoje, conhece perfeitamente o relacionamento com o mundo, por isso mesmo, às vezes não se relaciona.
Mulher muito bonita.
Gosta de filmes estrangeiros, com legendas, de diretores famosos que ninguém vê.
Lê muito, escreve incrivelmente bem. Tem um traço leve, solto, quase uma dança.
Possui um humor quase britânico, sarcástico, de quem já levou muitas voltas da vida. Apenas a sua expressão do que sente pelo mundo, sem meias palavras nem meias mentiras.
Bem longe da perfeição e sem o menor desejo de estar próxima, conhece bem seus limites e limitações. Vive bem com eles.
Vive bem com a passagem do tempo. Tempo este que mal se percebe em seu rosto.
Tornou-se, para mim, mulher alegre. Jamais saberei se o passado era fantasia ou ilusão. Considerando que é o que tenho, decidi que é real.
Quis tudo. Conseguiu, eu acho.
Sem mentiras, falsidade, rodeios, feminismos nem machismos. Mulher.
Continuei a amá-la. Talvez mais.
Fica aqui, meu muito obrigado.







