19 October 1996

Desenho animado

É aquele cara magricela e branco, de óculos sentado no Gol branco, quase como uma tentativa de camuflagem. Usa um terno enfadonho e está sempre com os vidros fechados.
Para se obter uma sombra em desenho animado é usada uma técnica de expor aqueles quadros novamente, protegendo o que não é sombra da luz, de forma a “queimar†mais um pouco aquele pedaço do filme.
Se sentia como uma sombra de desenho animado.
Às vezes parava no trânsito e começava a perceber como as pessoas na verdade não passavam de caricaturas de pessoas, cuidadosamente desenhadas por algum artista desconhecido.
Quando conseguia - raros instantes - imaginar a existência de Deus, via um homem de seus 25-30, com cabelo comprido, jaqueta heavy-metal, brinco de argola na orelha esquerda, talvez um piercing no nariz, com um maço de Chamex em uma mão e uma canetinha 0.3 na outra.
Teimava em ver apenas ilustrações, animações, obras cinematográficas, daquelas cheias de efeitos especiais que custam uma fortuna em Hollywood. Chegava então à mais óbvia das conclusões: Hollywood era Deus.
A percepção dele da realidade passou, finalmente, a ser precisa, justa, correta, afinal, não fazia mais parte dela, consequentemente, tinha o distanciamento necessário para melhor avaliar os fatos.
Foi ficando verde. Aquele verde-clorofila de uma aguada de nanquim de má qualidade. Sua pele não via mais o sol, aos poucos foi se tornando fotofóbico. Enfim seu sonho ermitão se tornava realidade.
Morava num sala e quarto pequeno na Zona Sul do Rio, as paredes eram iguaiszinhas às dos primeiros desenhos do Mickey em preto e branco, aquele, dos fantasmas, com o Pateta. Seu banheiro era a famosa cena de Fantasia, a da regência, com o Mickey. A mesa foi herdada, junto com as cadeiras e tudo mais que tinha na sala, do antigo apartamento de seus pais. No quarto, só o colchão de casal no chão, único objeto que fazia com que ele sentisse uma remota falta da realidade.
A organização de seu apartamento era inexistente. Rapidamente teve tendinite e se tornou míope. Mas não fazia diferença, afinal, já não conhecia mais ninguém mesmo. Vagarosamente, começou a perceber que assim como as pessoas não lhe faziam mais falta, ele também passava desapercebido. Enfim, a auto-suficiência!
Alguns anos haviam se passado quando resolveu ligar para velhos amigos. Mas não tinha para quem ligar. Não existiam velhos amigos porque antes do vídeo-game era o desenho animado, e antes do desenho animado era o que mesmo?
É ele que eu imagino quando estou no trânsito observando as caricaturas das pessoas. É aquele cara magricela e branco, de óculos sentado no Gol branco, quase como uma tentativa de camuflagem. Usa um terno enfadonho e está sempre com os vidros fechados. Este homem certamente não existe, não está ali do meu lado buzinando. Ele é uma criação do Walt Disney, assim como tudo que vejo.