Alguém que conheci
Mais parecia um indigente, vagando pelas ruas sem notar a realidade. Como se não fizesse parte. Acho que nunca fez.
Andava pelas madrugadas, sozinho, ignorando a violência, a solidão, e o medo.
Fumava. Bebia. Fumava de novo. A única coisa que percebia era a fumaça porque era uma das poucas coisas por ali que refletiam luz.
Acho que procurava um rosto conhecido, mas não tenho certeza. Figura quase patética.
Os amigos nunca foram fiéis. Os poucos fiéis, ignorou.
Ficou careca ao perceber o ridÃculo da sua solidão. Engordou por causa do ego.
Sempre se achou brilhante e, de fato, era.
Parecia escrever sempre. Escrevia para se livrar da realidade porque, se a realidade fosse o papel, então se esvaziava, desaparecia, afinal, a realidade escrita é, por natureza, ficção.
Por ser homem culto, conseguia justificativas intermináveis e inquestionáveis para sua própria destruição.
Viveu uma vida vazia. Precisava esquecer. Não poderia mais conviver com a realidade.
Foi assim, esquecendo, que o esqueci na mesa de um bar.







