19 October 1996

5 min.

Ela lia, lacrimejava.
Olhava pra mim e sorria.
Não sabia o que dizer, então calou.
Lia sobre uma vida passada mas não esquecida. Lia quase como quem olhava a um espelho.
Os espelhos mentem: teimam em mostrar uma imagem bidimensional e invertida da realidade.
Foi assim, como em um espelho, que me vi nela. Vi meu passado e meu futuro. Fantasia cruel essa do futuro antecipado.
A música de fundo chegava a incomodar, então diminuí o volume. Mas não desliguei. Precisava daquela interferência para conseguir distinguir a realidade da fantasia.
Nesse momento lembrei de um passado remoto. Nem tão remoto, nem tão passado. Mas, enfim, lembrei. Lembrei também porque queria esquecer.
Olhei de novo pra ela e sorri compulsivamente.