Ao acordar, percebia a linha fora de foco a vagar como um feixe de luz. Invadia sua intimidade. A linha persistia, até alcançá-lo, indo repousar no bico do seio dela. Isto o cativava.
O cheiro dela penetrava em seus poros. Deixava-se, mais uma vez, dominar por sua presença, como fazia todas as manhãs, num ritual. Ela era onipresente. RÃtmica.
Ser estranho, o ser da mulher. Tão diferente e tão próximo. Mesmo após este convÃvio. Conjugal: palavra que insistia em não pronunciar.
Rosto sereno, sua pele nem tão sedosa, o fascinavam. Ele a desejava. Queria o seu especÃfico sabor. E ela sabia. Bico do seio sob o lençol, persuadindo sua mente.
Deliciava-se com a idéia de possuÃ-la. Amanhecer ao seu lado o deslumbrava. Talvez a amasse.
Então eles conversavam. Monólogo a dois. Vencida a inércia do silêncio, falavam. Ele não a olhava pois queria vê-la. Diziam quase tudo. Decifravam-se, invasão desejada da intimidade, tentavam parar de se expor. Queriam a privacidade, tentativa inútil.
Ela o encarava, mas não o percebia. Detalhista, reparava na sua pele morena, seus cabelos grisalhos. Mas nunca olhava o todo. Detalhista e distante. Talvez o amasse.
Fixa em seu olhar, apreciava as sombras formadas na visão. Expressava muito além de seus sentimentos. Rompia o silêncio do Ãntimo. Sem sons, sem palavras, levantava-se.
Ele a seguia, à espera de algo que ele próprio desconhecia. Território de transição, ele não se sentia bem ali. Desabrigado. Harmônica, ela o impressionava com a mudez de seus atos.
Ele era sonoro, queria fazer-se perceber. Não era homem de carinhos. Apesar de negar, a conhecia profundamente. Previa seus pensamentos.
Ela não tinha essas preocupações, a surpresa lhe agradava. Ela lhe permitia estar só, não o incomodava. Estava sempre sociável, comunicável, por isso nunca se expunha. A não ser àquele homem grisalho. Fitava-o com curiosidade. Queria descobrir seus sentimentos. Despi-lo. Aprender sem errar.
Teimoso, tinha sempre razão. Ãntimo, transparecia a melancolia de ser apenas um. Sincero, desejava apenas a perfeição.
Encaixavam-se com precisão quase algébrica. Amavam-se?
Mais um daqueles grudentos dias de verão. Temperatura nada romântica. Despidos de preconceitos e de roupas, misturavam-se. O amor mesclava-se aos odores do calor. Pura pornéia. Atreviam-se. Desafiavam os limites da felicidade. CriptomalÃcias. Curavam-se da sombria solidão de não bastarem. Ousavam.
Ela desejava ser parte dele. Ele tinha certeza que o era.
Faziam um balanço de seus passados. Viviam intensamente todos os momentos. Viviam para um amor suficiente.
publicado na coletânea “A Intimidade”, Terceira Margem Editora, 1989 - CDD 809.93353